terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Da Sensibilidade

É de mim ou o mundo de repente virou florzinha?
Já todos sabemos que o eufemismo tomou o dia a dia de assalto, ou melhor, devagar e com carinho. A puta, foi de prostituta a profissional do sexo (mesmo que a sua perícia seja abaixo do aceitável); o deficiente tornou-se um alguém com necessidades especiais; o gordo tornou-se alguém com excesso de peso; um palito é uma mulher com distúrbios alimentares; um burlista é um CEO.
Eu podia continuar nisto, mas o que quero é mesmo chegar a esta muito simples conclusão, cada vez mais é difícil dizer o que se pretende. Porquê? Porque o mundo anda todo com o período. (Fui sexista, e então? Processem-me!) As gentes viraram bombas atómicas em balões e todas as palavras, até as suaves, parecem agulhas afiadíssimas.
Esta sensibilidade toda limita mais a liberdade de expressão que o célebre lápis azul, e seguindo a mesma tendência, a sensibilidade só existe para um lado, o da maioria. 

Falemos da liberdade de expressão.
A liberdade de expressão é indiscutivelmente um valor a defender. Deve ter limites? Já tem. Os limites são a lei. Isto vem bastante ao encontro do que aconteceu em França. Um jornal gozou da sua liberdade de expressão e sofreu. Não sofreu as consequências dessa liberdade como alguns quiseram colocar, mas sim as consequências de uma doutrina violenta que não sabe lidar com as opiniões contrárias mesmo que elas sejam, a meu ver, de mau gosto. A ultra-sensibilidade a matar. Defenda-se a liberdade de expressão. Discuta-se o gosto, mas sem matar ninguém, senão as boas gentes deste blog também viram coador. Mas para lá do choque cultural estão as reacções ao ataque. Alguns consideraram que foi justa a resposta. A grande maioria virou Charlie. Esses alguns foram depois intelectualmente executados na praça pública, mas vamos só imaginar que o Charlie Hebdo era um jornal, não de extrema-esquerda, mas de extrema-direita. Atrevam-se a visualizar as capas do jornal mas a satirizar a homossexualidade com a mesma intensidade que os infames cartoons que ofenderam o Islão. Continuavam a ser Charlies? Eu duvido. 
Aliás, julgo que a liberdade de expressão se esquecia num instante. Isto tudo voou como voaram os baldes de água por aquela doença para a qual toda a gente se está a cagar. Posta-se uma imagem, escreve-se algo em francês e voilà, somos Charlies. Treta! Fosse ao contrário e a ultra-sensibilidade manifestava-se também. E porquê? Porque não se pode dizer nada e a liberdade de expressão só serve para quem quer expressar o que determinada maioria aceita.

O reverso da medalha.

Alguém que se oponha ao casamento homossexual é muitas vezes acusado de homofobia na praça pública. Mesmo que expresse a sua opinião sem ultrapassar qualquer limite legal. Dizer que a disciplina é uma característica do povo japonês não acarreta nada de errado mas quando digo que a corrupção está bem presente na cultura angolana sou acusado de xenofobia.
Basicamente, criamos palavras depreciativas para quem use a sua liberdade de expressão de um modo diferente do nosso.
Eu acredito que um casal homossexual deve poder adoptar. Aqui posso afirmar isto. Há 100 anos não podia. Noutros sítios ainda não posso.
Nós somos, enquanto sociedade, o mesmo que criticamos noutras sociedades. Queremos liberdades e gritamos por elas mas não as cumprimos se não nos agradarem. De que vale gritar para que não haja mordaças enquanto amordaçamos outros. Se é para haver liberdade que haja uma liberdade plena, sob a lei como tudo o resto mas plena.
A ultra-sensibilidade e esta falsa liberdade de expressão, esta obrigação de eufemizar tudo para não chatear ninguém, parece uma forma do NewSpeak de Orwell - não se diz, não se pensa - e para mim não serve.

A nossa muy nobre pátria.
Este país que tem liberdade de expressão q.b. desde o 25 de Abril diz que é Charlie. Defende a liberdade de expressão mas renegou José Saramago por ofender a Igreja. Este país, este mesmo país cujos comediantes de topo fazem dois minutos na rádio porque os programas de comédia em horário nobre incomodam muita gente que diz que é Charlie. Este país que se esqueceu que Felizmente Há Luar e escolheu algo mais mansinho para os seus rebentos. Este país que gozando da minha liberdade de expressão, deixou há muito de ser a sombra da sua própria grandeza e ficou assim, reduzido a um montinho de excrementos, não muito grande, nem muito mal cheiroso, encostadinho a um canto para não estorvar, porque aqui não queremos incomodar ninguém e ser merda é uma chatice.

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