segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Noite no Porto.

23:30
Apanhas o autocarro para o Porto. Tens que pagar o bilhete porque te esqueceste de carregar o andante pela primeira vez. Percebes que pagar o bilhete num autocarro da STCP te faz lembrar alguma coisa. O facto de o motorista saber o que queres quando lhe entregas dinheiro, de não haver clientes especiais e todos pagarem o mesmo. Assim como não poder existir qualquer tipo de afecto. Sim, já fizeste algo parecido com isto, mas o quê?

23:45
Paragem de S. Roque. Entram duas moças. Iguais. Não são gémeas mas são iguais. Cabelo, maquilhagem, perfume e roupa. Tudo igual. Sentam-se nos dois bancos paralelos ao teu. Falam de gajos. Não consegues ouvir bem a conversa mas sabes que é sobre ciúme ou saudade. Tem de ser. Não pode ser sobre outra coisa porque a quantidade de temas a que estão habilitadas a falar são como a roupa que vestem, muito reduzida.

00:00
Estás no Porto. Reparas que só tens 5 euros. Foi o pior que te aconteceu desde que a tua mãe descobriu que tiraste nega no teste de Física e Química no 7º ano e te pôs de castigo - dois meses sem poder ver Oliver e Benji. Foram os piores meses da tua vida.
O que vale é que hoje há finos a 50 cêntimos.

1:00
Descobres que afinal tinhas mais dinheiro do que pensavas. As tuas calças têm, dento de um bolso, um outro mais pequeno - não poderia ser maior. Dás graças ao Deus das calças de ganga e à Joana, a gaja que um dia te pediu para pores um like num concurso para ela ganhar um estojo de maquilhagem da Sephora e que agora te abraça sempre que te vê, que te distraiu no momento em que estavas a guardar o troco na FNAC.
Estouras mais de metade do dinheiro em shots de absinto.

2:00
São duas da manhã. Tentas meter conversa com uma espanhola que está a falar com as amigas. Estragas tudo quando, sem querer, roças com a perna no rabo dela. Diminuis ainda mais a tua probabilidade de sucesso no momento em que o álcool te faz pensar que para pedir desculpa em espanhol basta acrescentar um acento agudo ao e. E pedes. "Désculpa". Depois disto não há nada a fazer se não afogar as mágoas em finos. E até te custa acreditar mas hoje estão a 50 cêntimos.

4:00
A tua bexiga está no limite. Vais à casa de banho e reparas que a fila se estende até Gaia. Só quando uma gaja te avisa é que descobres que estás na fila para a casa de banho das mulheres. Percebes que mijar aí é o equivalente em tempo à prestação da Sara Moreira na maratona de Nova Iorque.

6:15
Sabes que estás todo mamado quando acabaste a noite a falar do Preço Certo. E nem é sobre a Lenka, é sobre as margens de erro da montra final. Apanhas o autocarro de regresso. Dizes boa noite ao motorista ao dar-lhe o dinheiro para o bilhete. Ele dá-te o troco e não responde. Ao menos as prostitutas dizem boa noite.

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